"Sei o que vão dizer: a burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados. - E eu não sei? Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados." Afonso Romano de Sant'Anna

"... acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante." Cecília Meireles

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O triunfo da morte no Rio


O triunfo da morte (1562) - Pieter Brueghel

A INCONSTITUCIONAL TRAGÉDIA DO RIO
 
“Minha alma canta/Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar/Praia sem fim
Rio, você foi feito pra...”
(Tom Jobim)

 "É fácil por a culpa da tragédia do Rio em quem vai morar perigosamente nas encostas dos morros. É difícil imaginar-se na situação de quem não tem onde morar e tem de construir nos barrancos seus improvisos de casa. É fácil por a culpa no governo por não adotar medidas preventivas contra a tragédia. É difícil ser governo e ter que administrar o espólio da falta de planejamento urbano e irresponsabilidades acumuladas por gestões anteriores. Prevenir as tragédias não dá votos. Impedir que sem-tetos e construtoras inescrupulosas ocupem áreas de risco, tira votos. E a democracia, na prática política, não é mais do que ume engenharia eleitoreira.

Quer saber? Há leis e papeis bastantes para evitar ou, pelo menos, para reduzir os danos causados pelas enchentes e desmoronamentos de encostas. Anos sim e outros também. Talvez você não saiba, mas existe um sistema nacional de defesa civil, integrado por vários órgãos de todos os entes federativos, sob a coordenação de uma secretaria do Ministério da Integração Nacional, chamada de Sedec. No âmbito dos Municípios, existe a Comdec, uma coordenaria especializada em defesa civil. Sabe qual o objetivo da “defesa civil”? Reduzir a ocorrência e o impacto de desastres, por meio de ações de prevenção, de preparação para emergências e de resposta adequadas a suas ocorrências.

A organização do sistema é recente, data de 2 de julho de 2010, com a edição da medida provisória 494. Mas já havia disposições legais há tempo. Embora com raízes mais antigas, como a Diretoria Nacional do Serviço da Defesa Civil de 1943, somente após os estragos causados pelas grandes enchentes que ocorreram no Sudeste em 1966, passou-se a levar o assunto mais a sério com a organização da primeira “Defesa Civil Estadual do Brasil”. Onde? No antigo Estado da Guanabara, hoje, Rio de Janeiro. Em 1969, foi editado o Decreto-Lei n. 950, criando o Fundo Especial para Calamidades Públicas (FUNCAP) e prevendo um plano nacional de defesa permanente. Na verdade, somente em 1988, criou-se um sistema nacional de defesa civil com propósitos mais assentados de planejamento e coordenação contra eventos e catástrofes. Para não ficar somente no tema específico da defesa civil, recordo-me do Estatuto das Cidades, Lei 10257/2001, que é uma obra-prima de normas para adoção de políticas urbanas sustentáveis.

Não pare ainda por causa dessa citação de leis. A própria Constituição de 1988 prevê, em diversos artigos, ações relativas à defesa civil (arts. 22, XXVII, e 144, § 5º) e ao adequado ordenamento territorial, ao planejamento e ao controle do uso do solo (arts. 21, IX, XVIII;. 25, § 3º;. 30, VIII e 182, § 1º) Destacaria dois deles que nos oferecem a noção do todo: Cabe à União “planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades públicas, especialmente as secas e as inundações” (art. 21; XVIII). É tarefa municipal (eis o segundo destaque) promover a política de desenvolvimento urbano, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tendo por objetivo “ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes” (art. 182).

O volume de chuva é inconstitucional, vejo dizer uma autoridade. Pobre papel décor que recebe de tudo, por tudo e em nome de tudo. Tinta não lhe falta, todavia. Tintas de vergonha mais do que de prescrição. Na verdade, o que sobra de água no Rio falta de vontade política para efetivar uma política decente (constitucional) de uso e ocupação do solo, sem descaso, sem tentações eleitoreiras ou patrimoniais. A ganância de alguns políticos (e seus comparsas privados) é que é inconstitucional; a incompetência é inconstitucional; as mortes são inconstitucionais; a tragédia anunciada, por tudo, por todos, por nós que não sabemos fazer bem política e, com ela, os políticos, é desgraçadamente inconstitucional. É fácil ser governo assim; é difícil ser povo soterrado."

José Adércio, em 18.1.2011

terça-feira, 28 de dezembro de 2010



La Danse - Henry Matisse, 1910.

ORGANIZA O NATAL

Carlos Drummond de Andrade

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Você tem que me ler


Claude Monet
Madame Monet and her son (1875)

É antropológico: mulher odeia ser mandada. São séculos e séculos de opressão. Não dê corda, que já cheira a forca. Vale, inclusive, para a masoquista. Gosta de firmeza, não que alguém diga o que ela deve ou não fazer. Não seja autoritário. O feminismo não é conversa de sapatão.

Que aconselhe, não emplaque uma ordem. Que ofereça um palpite, este é despretensioso como um assobio, é soprar uma melodia e permitir espaço para que ela complete a letra. Finja que está no chuveiro – menor o risco de se afogar. Fale cantado. Quem canta nunca será um ditador.

Posso estar plenamente equivocado, sou tão bonito quanto carro de eletricista, mas mulher aprecia é sentir saudade. Quando o homem desaparece e ela corre para procurá-lo. São coisas do cotidiano. Fui percebendo que a conversa com a minha namorada estragava sempre do mesmo jeito. Havia um método no erro. Uma insistência de minha parte. Uma frase morse que truncava o entendimento. Depois que pronunciava aquilo, nada mais funcionava. Da calmaria, ela migrava para um estado nervoso e impaciente. A transformação de sua atitude me baqueava: O que foi? Será que perdi algo? Retrocedia para caçar uma gafe. Cansei até captar o sinal. O homem ainda tenta melhorar sua imagem com o bombril na antena.

Eu dizia “você tem que” a cada início de diálogo. Impositivo, não agia por mal, era um hábito, buscava convencer com “você tem que”. Parecia que tinha a solução dos problemas do mundo. Persuasão é a sedução para quem não tem paciência. Meu caso; não cuidava da linguagem e depois estranhava o silêncio dela. “Você tem que” é um mandado de segurança. É atestar que ela não desfruta de condições de conduzir a própria vida. Virava um segundo pai, determinando suas atitudes. Fugia da cumplicidade, vinha com os mandamentos e as condicionais de comportamento para que merecesse a mesada.

O homem não botou na cabeça que a fragilidade da mulher não é dependência. Ela não precisa ser protegida, e sim respeitada. Existe uma diferença aguda no tratamento. Depois que ela fica braba não adianta remendar. Emerge um pânico das cavernas, o receio de ser puxada pelos cabelos e pelas palavras. Igual é chamá-la de louca no meio de uma discussão.

Quem não encheu o pulmão para desabafar “você está louca!”, com aquele grito catártico, que serve como elevador para todo o prédio? Eu confesso, mais de uma vez. É novamente afirmar que ela não tem domínio, que nem sabe o que está falando e menosprezar sua opinião. Pode até ser louca, mas não chame de louca, senão ela não vai recuperar o juízo. Na história do pensamento, quantas mulheres foram enviadas para o hospício devido a sua autonomia? Quantas receberam eletrochoque ou sofreram lobotomia em função da independência de estilo? Significa um joanete ancestral, um calo antiguíssimo, não pise.

Joana D’Arc não foi uma bruxa. Assim como vassoura não é para voar, é para varrer qualquer sujeira machista dentro de casa.
Fabrício Carpinejar

Publicado no jornal Zero Hora
Interino de Luis Fernando Verissimo, p. 2, 04/10/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16478
Republicado no blog do autor: www.http://carpinejar.blogspot.com/

sexta-feira, 16 de abril de 2010

"Um livro é um animal vivo", diz Aristóteles

Sei da existência de uma mulher – que não me conhece, como também não a conheço – que tem repulsa por livrarias largas, amplas e espaçosas. Ela acredita que o livro fica exposto como cachorro e gato dentro de gaiolas, situação que os fazem passar vexame. Ela resolve o problema não entrando em livrarias que não sejam pequenas como um quarto de fundos. Essa mesma mulher também não entra em bibliotecas. Acredita que o livro foi dissecado, violado por um legista, com a ficha catalográfica atrás, denunciando os cortes depois da morte. Quem me contou sobre essa mulher foi Fabrício Carpinejar, um cronista-poeta que me foi apresentado, recentemente, por uma querida amiga.

Espaçosas, amplas, largas, estreitas, curtas, pequenas como um quarto de fundos, luxuosas ou improvisadas numa garagem, empoeiradas ou cheirando éter, não importa: em casa de livro eu me sinto em casa. Singulares, todas são, para mim, sedutoras, encantadas e até mesmo venenosas.

A começar pelas livrarias, desconheço um estabelecimento comercial mais atraente. Os donos de livrarias são terríveis! Colocam montes de livros esteticamente dispostos, brincando entre si, numa mistura que vai do lúdico às elegias.

Imagine que entre o verbo e você só há uma parede de vidro, conhecida por vitrine. Diante de tantos convites, seria uma indelicadeza não aceitar parar e entrar um pouco para interagir com os habitantes daquela casa.

Todos novinhos, a maioria deles ainda lacrada, seres virgens, sôfregos, esperando por alguém que possa simplesmente tocá-los. Tão inexperientes! Ainda não sabem nada sobre a vida, desconhecem os costumes, as malícias. São crianças querendo sair de casa e mergulhar no mundo do desconhecido.

As luzes da casa são de densa brancura; as mesas e cadeiras que a compõem, bem confortáveis; os empregados são gentis e atenciosos (não interessa o porquê, desde que sejam). Em algumas delas, pode-se ser agraciado com um cafezinho ou um copo d’água. As mais ilustres contam com fundo musical, ar condicionado, acesso à internet e até espaço infantil, que é pras crianças também aproveitarem a visita.

É imperceptível, mas o feitiço é lançado quando se passa defronte a uma dessas casas. Se se é um pouco mais sensível, pronto! O sujeito fica encantado, transpõe o portal, levita por entre os labirintos e se perde na morada dos próprios desejos. Ao fim, despede-se, levando, nas sacolas, os intocados e suas promessas de vida, e vida em abundância!

Por outro lado, a metodologia, técnica e preceitos seguidos pelo bibliotecário, o controle dos empréstimos, a inevitável punição dos usuários atrasados, repreensões em resposta às conversas, as fichas catalográficas e a, não rara, peregrinação para encontrar o livro buscado – o que termina por transmudá-lo num troféu – fazem com que a biblioteca seja equiparada à casa dos pais.

Mas essas casas de livros, como ocorre com as dos pais, passam muito ao largo de tanto rigor. A par das regras, em ambas se sente o calor da pessoalidade, o silêncio da intimidade, há a autenticidade do não e da repreensão, a familiaridade com os habitantes. Nelas, pode-se ficar sozinho, esconder-se – entre as estantes ou nas salas –, passar o dia inteiro e não comprar nada, e até levar o livro sem pagar pode, sob a condição de devolvê-lo, claro.

Livros que moram em bibliotecas não têm pudor, andam nus, são promíscuos, não guardam rancor, nem são preconceituosos, entregam gratuitamente seus corpos a qualquer um que os deseje, são livro-livres. Muitos sofrem maus-tratos, abrigam restos de comida, bebem ou tomam banhos à força, são aleijados, desprezados; outros, amados e protegidos; mas todos, todos, permanecem resignados em seus lugares, à espera de alguém que os queira levar emprestado.

Essa vida errante é o que torna altruístas os livros que habitam as bibliotecas. Seres corajosos, eles são soldados que lutam contra a estagnação das idéias, cujo destino deve ser os ventiladores.

Esses abnegados seres também podem ser encontrados em outra morada: os sebos.

Há pessoas que desfazem de livros por puro ideal: acreditam que o circuito deles deve ser cíclico. Outras, por simples desprezo. Há as que mudam de casas para “apertamentos”, os quais não foram construídos para dar abrigo a livros, ou seja, deles precisam se desfazer. Há, também, os amantes perdidos, que desfazem de tudo o que possa lembrar o ser amado. Mas, certamente, as histórias mais tristes são daquelas pessoas que desfazem de seus livros por necessidade de dinheiro.

Órfãos, desprezados ou rejeitados, por necessidade, falta de condições ou puro desamor, esses livros são mandados para abrigos – os sebos – e, em troca, seus proprietários recebem irrisória contraprestação pecuniária, além do alívio por tirar os livros das costas.

Sem que elas saibam, sou muitíssimo grata a essas pessoas. Afinal, o problema de um pode ser a alegria do outro, ou outros. No caso dos sebos, ficamos no plural. Ficam felizes os sebistas, construtores da ponte; muito felizes também ficam os garimpeiros – freqüentadores de sebos – que adquirem obras raras, livros esgotados, coleções valiosas, economizam dinheiro, além do prazer de prosear, sem demora, com o dono do sebo, que, em regra, é um sujeito cativante, culto, apaixonado por livros e expectador do amor.

Ele não deseja que você compre qualquer livro. Os sebos se diferenciam das livrarias que trabalham somente com livros novos porque entre o sebista e o freguês estabelece-se uma relação que ultrapassa o âmbito comercial. Primeiro ele oferece uma banqueta, dá um tempo, oferece ajuda, começa a conversar, auxilia no garimpo, conta o caso de como o livro passou a morar naquele sebo, quanto tempo costuma ficar hospedado, mostra os novos livros velhos, vai dar atenção a outro garimpeiro, arruma alguns exemplares que estão tortos na estante, senta, inicia o processo de assepsia de um morador que acabou de chegar e espera, sem pressa, o término da garimpagem.

Ela pode durar alguns minutos, horas ou mesmo o dia inteiro. Sentado no chão, na banqueta ou trepado numa escada junto à estante, o garimpeiro manuseia cuidadosamente os livros, folheia, lê, troca opiniões com outros garimpeiros, faz perguntas ao sebista...

A negociação é outro momento interessante no comércio dos livros usados. Os preços irreais estão escritos na contracapa do livro. É falso porque sempre haverá, no mínimo, um desconto de dez por cento – às vezes, até sem que o freguês peça. Daí começa a choradeira. Pagamento à vista, quantidade de livros, raridade da obra, índice de procura, estado de conservação, enfim, tudo é motivo para argumentar e pedir para abaixar ainda mais o preço. Quase sempre dá certo!

A diversidade dos freqüentadores faz dos sebos uma espécie de mercado. A fidelidade de alguns é um fenômeno. Sebos são espaços de sociabilidade e resistência. Sobreviveram primeiro às grandes livrarias, depois à internet, agora (estão sobrevivendo) aos livros eletrônicos, ou seja, ao mercado, à tecnologia e ao conforto deles decorrente.

Enquanto sobreviverem os apaixonados pelo livro-livro - folhas de papel impressas, capa, ilustrações, sumário, cheiro, textura, anotações particulares, grifos, gotas de café, amassados, rugas, traças e ácaros (risos) -, os sebos sobreviverão.

Termino, como quem não quer nada, avisando que, todo aquele que comprar um livro eletrônico e que porventura queira desfazer de seus livros empoeirados e espaçosos, EU aceito doações. Sinto um prazer inenarrável ao assistir, dia após dia, à lotação da minha estante, escrivaninha, guarda-roupa... No futuro, quero um quarto inteirinho só pra eles, que seja bem espaçoso, confortável e iluminado. Eles merecem, os meus queridos amigos velhos que, por sinal, estão sempre monstruosamente acompanhados por ácaros e traças!

Para os amantes, o desejo nunca é saciado apenas com os olhos, pois a emoção e sensualidade do toque também são fontes de prazer.



"... é apenas um convite a explorar, um universo
que nos é ainda bastante desconhecido."
Robert Darnton



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DELGADO, Márcia. Cartografia sentimental de livros e sebos. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
CARPINEJAR, Fabrício. O amor esquece de começar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Olhai para os que sofrem...


Foto: fonte desconhecida
A alma de Tom canta, lá de cima ele vê o Rio de Janeiro, morre de saudades, mas não consegue acreditar no que diz o Sr. Jorge Mário da Silva, seu conterrâneo. Perguntado sobre como andavam as coisas do lado de cá da existência, Seu Jorge respondeu, num canto choroso:

- Não vai nada bem, não vai nada bem!

Ninguém havia se suicidado, como Chatterton, mas na história que o estava entristecendo havia choro e “Sangue! Sangue! Sangue!”.

– Tom - disse Seu Jorge -, estamos em silêncio, de luto, o Rio de Janeiro não está mais lindo, nem nada de maravilhoso está acontecendo por aqui. Pelo contrário, caro amigo, nossa cidade e seus filhos foram arrasados pela maior chuva registrada até hoje.

Jorge Mário quis continuar a falar, mas o pranto embargou sua voz. A tragédia carioca trazia lembranças de uma triste fase que pertubou a juventude do artista. Vitório, seu irmão, foi morto numa chacina que desuniu os famíliares. Nessa época, o jovem passa à condição de sem-teto, mas a roda viva acabou carregando seu destino para outro lado: Jorge se abriga, por três anos, no teatro da UERJ (Universidade do Rio de Janeiro), onde se apaixona definitivamente pela arte, pela música, e encontra o lugar de onde não mais desceu: os palcos. Mas hoje sequer a música conseguia luzir aquele olhar enternecido.

Alguém bate à porta. Era Vinícius, corpo em desalinho, amargurado, com uma garrafa de uísque em punho e um jornal debaixo do braço. Ele, que nascera, em meio a forte temporal, na madrugada de 19 de outubro, de 1913, na cidade maravilha mutante, não gostava de dias nublados, mas sempre soube que a tristeza não tem fim. Mostrou o jornal, notícia estava lá, na primeira página: “A chuva que castiga o Rio de Janeiro deixou pelo menos 220 mortos, centenas de feridos, alagou ruas, causou deslizamentos e destruição no Estado. É o maior índice de chuvas na cidade desde que começou a medição, há mais de 40 anos.”. O poetinha se calou e tragou mais um gole do amigo que repousava na garrafa.

Não demorou pra que chegasse Nelson Cavaquinho, que passou a beber junto aos amigos. Logo depois, o moço da Vila, Noel, e Cartola também chegaram. Os sambistas, que não estavam por dentro das notícias, apresentaram-se animados, ansiosos para ouvir aquele samba que Tom fizera só porque "Rio eu gosto de você”. Em verdade, queriam mesmo era ver a morena dançar, seu corpo todo balançar.

Mas Nelson Cavaquinho, de luto, foi logo dizendo:

- Respeite a minha dor
Não cante agora
...
Eu também já fui feliz
Até que um dia
O luto envolveu minha alegria.

Irineu de Almeida, o mestre Pixinguinha, só fazia soprar sua flauta, em perfeita sintonia com a melancolia que tomava conta das cidades e das pessoas. Sentia que não havia o que ser dito, pois era incapaz de compreender a dimensão da dor das vítimas. Preferiu o silência ao alarde.

Ao contrário do calar de sua voz, de hora em hora, repórteres armados de microfones, holofotes de emissoras de televisão e os flashs das máquinas fotográficas expunham ao público o desespero daqueles que haviam perdido sua casas, bens e, principalmente, as pessoas que amam. A todo momento buscavam depoimentos de dor e de glória, para que os fatos configurassem verdadeira tragédia. Via-se que a imprensa não pretendia apenas noticiar, mas utilizar tudo aquilo na disputa pelos níveis de audiência. Diante desse caos, Fernanda Abreu foi-se embora. Não queria saber do submundo da TV.

Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, abraçou um de seus ídolos, conterrâneo e xará, Angenor de Oliveira, o Cartola, e juntos choraram por ver a cidade perdida; mas logo em seguida sorriram com batidas de esperanças no coração, pois já estava terminado o verão. Ao fim daquela tempestade o sol nasceria de novo e, com o tempo, os cariocas – espertos e alegres, que já nascem bambas e craques, pelo canto da gaúcha Adriana Calcanhoto – reconstruiriam suas vidas.

Mas Tom continuava pensando nas águas de março que prometem vida aos corações quando fecha o verão...

O tempo nublado tudo acinzentava e os impedia de ver, da janela, o Corcovado e o lindo Redentor, de braços abertos sobre a Guanabara. Olhos nos olhos, todos, de mãos dadas, fizeram uma prece pra Deus, Nosso Senhor, pra chuva parar de molhar aquela terra de gentes inocentes.

Nessa hora, Jorge Ben inverteu o verso e pediu à chuva que parasse de chover sem parar:

- Por favor, chuva ruim, não molhe mais estas cidades assim.

E Tom passou a crer que não era o fundo do poço, nem o fim do caminho. As promessas de vida ainda haviam de ser cumpridas.

Heitor Villa-Lobos foi o último chegar. Este filho do Rio, em afinada desarmonia com a dor que flutuava sobre a cidade, disse calmamente aos amigos:

– Não se isolem. Não sejam indiferentes à dor alheia. Não se conformem. Dias como este servem, também, para reaproximar pessoas e, a partir deste sentimento solidário de dor, reconciliá-las com o efêmero. Distantes de nossas certezas e seguranças, continuaremos nossa caminhada, juntos e irresolutos diante dos mistérios da existência.

Todos ouviram atentos às palavras de Villa-Lobos, e estes Cariocas, amantes de seu povo e de sua terra natal, permaneceram ali, lutuosos, a beber e a cantar ...

É de se compreender, afinal “Cariocas não gostam de dias nublados”.