"Sei o que vão dizer: a burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados. - E eu não sei? Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados." Afonso Romano de Sant'Anna

"... acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante." Cecília Meireles

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terça-feira, 13 de julho de 2010

Limites

Adélia Prado


Uma noite me dei conta de que possuía uma história,

contínua, desde o meu nascimento indesligável de mim.

e de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes,

modos de voz e gesto repetindo-se.

Até os dons, um certo comum apelo ao religioso

e que tudo pesava. E desejei ser outro.

Minha mãe não tinha letras.

Meu pai freqüentou um Ginásio por três dias

de proveitoso retiro espiritual.

Tive um mundo grandíssimo a explorar:

“demagogia, o que é mesmo que essa palavra é?”

Abismos de maravilha oferecidos em sermões triunfantes:

“Tota pulchra est Maria!”

Só quadros religiosos nas paredes.

Só um lugar aonde ir

- e já existiam Nova Iorque, Roma!-

Tanta coisa eu julguei inventar,

minha vida e paixão,

minha própria morte,

esta tristeza endócrina resolvida a jaculatórias pungentes,

observações sobre o tempo. Aprendi a suspirar.

A poesia é tão triste!

O que é bonito enche os olhos de lágrimas.



Tenho tanta saudade dos meus mortos!

Estou tão feliz! À beira do ridículo

arde meu peito em brasas de paixão.

Vinte anos de menos, só seria mais jovem.

Nunca, mais amorável.

Já desejei ser outro.

Não desejo mais não.


(Terra de Santa Cruz, 1986)

sábado, 3 de julho de 2010

AMOR


A formosura do teu rosto obriga-me

e não ouso em tua presença

ou à tua simples lembrança

recusar-me ao esmero de permanecer contemplável.

Quisera olhar fixamente a tua cara,

como fazem comigo soldados e choferes de ônibus.

Mas não tenho coragem,

olho só tua mão,

a unha polida olho, olho, olho e é quanto basta

pra alimentar fogo, mel e veneno deste amor incansável

que tudo rói e banha e torna apetecível:

caieiras, desembocaduras de desgostos,

idéia de morte, gripe, vestido, sapatos,

aquela tarde de sábado,

esta que morre agora antes da mesa pacífica:

ovos cozidos, tomates,

fome dos ângulos duros de tua cara de estátua.

Recolho tamancos, flauta, molho de flores, resinas, rispidez de teu lábio que

suporto com dor

e mais retábulos, faca, tudo serve e é estilete,

lâmina encostada em teu peito. Fala.

Fala sem orgulho ou medo

que à força de pensar em mim sonhou comigo

e passou um dia esquisito,

o coração em sobressaltos à campainha da porta,

disposto à benignidade, ao ridículo, à doçura. Fala.

Nem é preciso que o amor seja a palavra.

"Penso em você" - me diz e estancarei os féretros,

tão grande é minha paixão.

(Adélia Prado)


Ilustração: "O beijo".
A escultura do artista francês, Auguste Rodin, foi inspirada em sua assistente e amante Camille Claudel.