"Sei o que vão dizer: a burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados. - E eu não sei? Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados." Afonso Romano de Sant'Anna

"... acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante." Cecília Meireles

Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Patativa do Assaré. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Patativa do Assaré. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de março de 2010

Mais uma dose de Patativa...











AMANHÃ

Amanhã, ilusão doce e fagueira,
Linda rosa molhada pelo orvalho:
Amanhã, findarei o meu trabalho,
Amanhã, muito cedo, irei à feira.

Desta forma, na vida passageira,
Como aquele que vive do baralho,
Um espera a melhora no agasalho
E outro, a cura feliz de uma cegueira.

Com o belo amanhã que ilude a gente,
Cada qual anda alegre e sorridente,
Como quem vai atrás de um talismã.

Com o peito repleto de esperança,
Porém, nunca nós temos a lembrança
De que a morte também chega amanhã.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Continuando com Patativa...


VOCÊ SE LEMBRA?

À minha querida esposa BELINHA

Você se lembra de um feliz passado
E inda gravado está no coração?
No que nos deu uma alegria imensa,
A gente pensa e não se esquece não.

Daquela quadra eu faço ainda estudo
Relembro tudo e dou louvor a Deus,
Versos saudosos a minh’alma canta
Lagoa D’Anta dos prazeres meus

Faz muito tempo, mas eu relembro aquelas
Noites tão belas, bem enluaradas,
Você, repleta de vigor e graça,
Lavava massa pelas farinhadas.

Eu, rude bardo, uma paixão cantava
E lhe julgava nos meus doces cantos,
A camponesa minha preferida,
Para na vida consolar meus prantos.

Esperançosos fomos nos amando,
Ambos pensando em um feliz noivado,
Até que um dia o nosso lindo sonho
Sempre risonho foi realizado.

Cumprindo as juras com prazer infindo
Cantando e rindo pela vida afora
A gente via no conjugal ninho
Luz e carinho de uma nova aurora.

Trinta e seis anos nós assim vivemos
Exemplos demos de coração nobre,
Com paciência dentro da guarida
A nossa vida de família pobre.

Aos trinta e sete, que tristeza a nossa!
Deixei a roça com a gente vê
E conduzido pelo negro fado
Vivo afastado, longe de você.

Longe e saudoso neste meu retiro,
Triste suspiro do meu peito arranco.
E quero ainda no meu lar viver!
Eu quero ver o seu cabelo branco.

Querida esposa, guia do meu norte,
Vejo que a sorte veio contra mim;
Para quem tem um coração sensível,
É muito horrível padecer assim.

Guanabara-novembro/74.

ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino. Vozes: Ceará, 1992, 8ª edição, p.163-64.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Filosofia de um trovador nordestino

Filósofo? Um trovador nordestino semi-analfabeto?

Bom, para os poetas “niversitáro, de rico vocabularo”, ele próprio já pediu licença, no poema Aos poetas clássicos, para cantar seu pensamento. Já para os filósofos de Academia, eu, mesmo sem conhecer de modo exaustivo a obra deste nordestino, confiro a mim o direito de pedir licença para também afirmar que se trata de um filósofo. Ainda que não tenha justificado metodologicamente sua sabedoria, agregando-lhe ares epistemológicos, a sensibilidade com que percebeu o ser humano e suas relações com o mundo é bastante para considerá-lo um autêntico amante da sabedoria, ou seja, um filósofo.

Falo de Antônio Gonçalves da Silva, o “Patativa do Assaré”, poeta sertanejo que conseguiu descrever, liricamente, “o prazê e o sofrimento” da vida no campo; denunciar, sem agredir, as desigualdades sociais e a corrupção; enaltecer valores como honradez, lealdade e disposição para o trabalho; enfim, falar de existência de modo simples e simultaneamente profundo.

O codinome já expressa o encanto de sua figura: Patativa é uma ave de canto suave e harmonioso, nativa da Chapada de Araripe, divisa entre o Ceará e Pernambuco; “Assaré” é por causa do local onde nasceu, sítio Serra de Santana, que “dista três léguas da cidade de Assaré”.
Difícil falar de Patativa do Assaré em breves linhas. Assim, deixo a tarefa pra ele mesmo, num breve recorte de sua autobiografia:

“(...) Quando completei oito anos fiquei órfão de pai e tive que trabalhar muito, ao lado de meu irmão mais velho, para sustentar os mais novos, pois ficamos em completa pobreza. Com a idade de doze anos, freqüentei uma escola muito atrasada, na qual passei quatro meses, porém sem interromper muito o trabalho de agricultor. Saí da escola lendo o segundo livro de Felisberto de Carvalho e daquele tempo para cá não freqüentei mais escola nenhuma, porém sempre lidando com as letras, quando dispunha de tempo para este fim. Desde muito criança que sou apaixonado pela poesia, onde alguém lia versos, eu tinha que demorar pra ouvi-los. (...) Com dezesseis anos de idade, comprei uma viola e comecei a cantar de improviso, pois naquele tempo eu já improvisava, glosando os motes que os interessados me apresentavam. (...) Não tenho tendência política, sou apenas revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes talvez da política falsa, que continua fora do programa da verdadeira democracia. Nasci a 5 de março de 1909. Perdi a vista direita, no período da dentição, em conseqüência da moléstia vulgarmente conhecida por Dor-d’olhos. Desde que comecei a trabalhar na agricultura, até hoje, nunca passei um ano sem botar a minha roçazinha, só não plantei roça, no ano em que fui ao Pará [cinco meses].” Antônio Gonçalves da Silva (p. 15-6)

Patativa do Assaré foi casado com Belinha, com quem teve nove filhos. Faleceu na mesma cidade onde nasceu, em 8 de julho de 2002, aos 93 anos, completamente lúcido e capaz de recitar qualquer um de seus versos. Nunca deixou de ser agricultor, sempre tendo dito que não faria, como não fez, de sua arte uma profissão.

Do pouco que sei, digo que a riqueza de sua obra - que mescla sertão e poesia, música e filosofia, religião, militância, lirismo, sentimento e razão... escrita e cantada no rude linguajar da gente sertaneja, esse povo que, com liberdade e natural desenvoltura sabe expressar sua sabedoria - precisa ser difundida, muito divulgada, mesmo! Ainda pouco conhecido pelo seu povo, o Poeta vem sendo reconhecido, pelo meio acadêmico, como um "monstro sagrado" da cultura popular brasileira. Já recebeu inúmeros prêmios, homenagens, foi nomeado, por cinco vezes, Doutor Honoris Causa. A complexidade e arranjo estético de sua poesia atraem a atenção de estudiosos do mundo inteiro. Tenha-se por exemplo a Universidade de Sorbone, que estuda a vida e obra de Patativa do Assaré, na Cadeira de Literatura Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel, desde a década de 80. Entretanto, isso tudo de nada valerá se a riqueza da obra e genialidade do autor não forem alcançados pelos verdadeiros destinatários do suave e harmonioso canto de Patativa, o povo.

Durante esta semana vou postar alguns versos escritos pelo poeta, que garantiu "sê fié e não instruí papé com poesia sem rima.", como no seguinte trecho do poema Aos poetas clássicos:

“(...)
Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulo sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me desanima
(...)”

FONTES:

ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino. Vozes: Ceará, 1992. 8ª edição.
Site da Revista Agulha, acessado em 22.3.2010, http://www.revista.agulha.nom.br/anton.html