"Sei o que vão dizer: a burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados. - E eu não sei? Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados." Afonso Romano de Sant'Anna

"... acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante." Cecília Meireles

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terça-feira, 28 de dezembro de 2010



La Danse - Henry Matisse, 1910.

ORGANIZA O NATAL

Carlos Drummond de Andrade

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

 

Primavera na Serra

 Claridade quente da manhã vaidosa
O sol deve ter posto lente nova,
e clareou todas as manchas,
para esperdiçar luz.

Dez esquadrilhas de periquitos verdes
receberam ordem de partida,
deixando para as araras cor de fogo,
o pequizeiro morto.
E a árvore, esgalhada e seca, se faz verde,
vermelha e castanha, entre os mochoqueiros,
braúnas, jatobás e imbaúbas do morro,
na paisagem que um pintor daltônico
pincelou no dorso de um camaleão.

E o lombo da serra é tão bonito e claro,
que até uma coruja,
tonta e míope na luz,
com grandes óculos redondos,
fica trepada no cupim, o dia inteiro,
imóvel e encolhida, admirando as cores,
fatigada, talvez, de tanta erudição... 

João Guimarães Rosa 

Magma. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1997, p. 141.
Foto: Portal Grande Sertão, inaugurado em junho/2010, na cidade de Cordisburgo/MG, onde nasceu Guimarães Rosa.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Filosofia de um trovador nordestino

Filósofo? Um trovador nordestino semi-analfabeto?

Bom, para os poetas “niversitáro, de rico vocabularo”, ele próprio já pediu licença, no poema Aos poetas clássicos, para cantar seu pensamento. Já para os filósofos de Academia, eu, mesmo sem conhecer de modo exaustivo a obra deste nordestino, confiro a mim o direito de pedir licença para também afirmar que se trata de um filósofo. Ainda que não tenha justificado metodologicamente sua sabedoria, agregando-lhe ares epistemológicos, a sensibilidade com que percebeu o ser humano e suas relações com o mundo é bastante para considerá-lo um autêntico amante da sabedoria, ou seja, um filósofo.

Falo de Antônio Gonçalves da Silva, o “Patativa do Assaré”, poeta sertanejo que conseguiu descrever, liricamente, “o prazê e o sofrimento” da vida no campo; denunciar, sem agredir, as desigualdades sociais e a corrupção; enaltecer valores como honradez, lealdade e disposição para o trabalho; enfim, falar de existência de modo simples e simultaneamente profundo.

O codinome já expressa o encanto de sua figura: Patativa é uma ave de canto suave e harmonioso, nativa da Chapada de Araripe, divisa entre o Ceará e Pernambuco; “Assaré” é por causa do local onde nasceu, sítio Serra de Santana, que “dista três léguas da cidade de Assaré”.
Difícil falar de Patativa do Assaré em breves linhas. Assim, deixo a tarefa pra ele mesmo, num breve recorte de sua autobiografia:

“(...) Quando completei oito anos fiquei órfão de pai e tive que trabalhar muito, ao lado de meu irmão mais velho, para sustentar os mais novos, pois ficamos em completa pobreza. Com a idade de doze anos, freqüentei uma escola muito atrasada, na qual passei quatro meses, porém sem interromper muito o trabalho de agricultor. Saí da escola lendo o segundo livro de Felisberto de Carvalho e daquele tempo para cá não freqüentei mais escola nenhuma, porém sempre lidando com as letras, quando dispunha de tempo para este fim. Desde muito criança que sou apaixonado pela poesia, onde alguém lia versos, eu tinha que demorar pra ouvi-los. (...) Com dezesseis anos de idade, comprei uma viola e comecei a cantar de improviso, pois naquele tempo eu já improvisava, glosando os motes que os interessados me apresentavam. (...) Não tenho tendência política, sou apenas revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes talvez da política falsa, que continua fora do programa da verdadeira democracia. Nasci a 5 de março de 1909. Perdi a vista direita, no período da dentição, em conseqüência da moléstia vulgarmente conhecida por Dor-d’olhos. Desde que comecei a trabalhar na agricultura, até hoje, nunca passei um ano sem botar a minha roçazinha, só não plantei roça, no ano em que fui ao Pará [cinco meses].” Antônio Gonçalves da Silva (p. 15-6)

Patativa do Assaré foi casado com Belinha, com quem teve nove filhos. Faleceu na mesma cidade onde nasceu, em 8 de julho de 2002, aos 93 anos, completamente lúcido e capaz de recitar qualquer um de seus versos. Nunca deixou de ser agricultor, sempre tendo dito que não faria, como não fez, de sua arte uma profissão.

Do pouco que sei, digo que a riqueza de sua obra - que mescla sertão e poesia, música e filosofia, religião, militância, lirismo, sentimento e razão... escrita e cantada no rude linguajar da gente sertaneja, esse povo que, com liberdade e natural desenvoltura sabe expressar sua sabedoria - precisa ser difundida, muito divulgada, mesmo! Ainda pouco conhecido pelo seu povo, o Poeta vem sendo reconhecido, pelo meio acadêmico, como um "monstro sagrado" da cultura popular brasileira. Já recebeu inúmeros prêmios, homenagens, foi nomeado, por cinco vezes, Doutor Honoris Causa. A complexidade e arranjo estético de sua poesia atraem a atenção de estudiosos do mundo inteiro. Tenha-se por exemplo a Universidade de Sorbone, que estuda a vida e obra de Patativa do Assaré, na Cadeira de Literatura Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel, desde a década de 80. Entretanto, isso tudo de nada valerá se a riqueza da obra e genialidade do autor não forem alcançados pelos verdadeiros destinatários do suave e harmonioso canto de Patativa, o povo.

Durante esta semana vou postar alguns versos escritos pelo poeta, que garantiu "sê fié e não instruí papé com poesia sem rima.", como no seguinte trecho do poema Aos poetas clássicos:

“(...)
Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulo sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me desanima
(...)”

FONTES:

ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino. Vozes: Ceará, 1992. 8ª edição.
Site da Revista Agulha, acessado em 22.3.2010, http://www.revista.agulha.nom.br/anton.html