"Sei o que vão dizer: a burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados. - E eu não sei? Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados." Afonso Romano de Sant'Anna

"... acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante." Cecília Meireles

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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Primavera, por Cecília Meireles


A primavera acaba de chegar, Cecília! Estamos no 9º minuto do dia 23 de setembro de 2010 (Cosmobrain Astronomia e Astrofísica).



A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Cecília Meireles

Texto: “Cecília Meireles – Obra em Prosa – Volume 1″, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1998, p. 366.
Foto: Fernando Gomes (Avenida Brasil, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul).

domingo, 19 de setembro de 2010



Desejo de regresso

Deixai-me nascer de novo,
nunca mais em terra estranha,
mas no meio do meu povo,
com meu céu, minha montanha,
meu mar e minha família.

E que na minha memória
fique esta vida bem viva,
para contar minha história
de mendiga e de cativa
e meus suspiros de exílio.

Porque há doçura e beleza
na amargura atravessada,
e eu quero memória acesa
depois da angústia apagada.
Com que afeição me remiro!

Marinheiro de regresso
com seu barco posto a fundo,
às vezes quase me esqueço
que foi verdade neste mundo.
(Ou talvez fosse mentira...)

Cecília Meireles

sábado, 18 de setembro de 2010

 
Cecília Meireles em Lisboa.
Desenho de Fernando Correia Dias.

Lua adversa


Tenho fases, como a lua,

fases de andar escondida,

fases de vir para a rua...

Perdição da minha vida!

Perdição da vida minha!

Tenho fases de ser tua,

tenho outras de ser sozinha.


Fases que vão e que vêm,

no secreto calendário

que um astrólogo arbitrário

inventou para meu uso.

E roda a melancolia

seu interminável fuso!


Não me encontro com ninguém

(tenho fases, como a lua...).

No dia de alguém ser meu

não é dia de eu ser sua...

E, quando chega esse dia,

o outro desapareceu...



 Canção do Sonho Acabado


Já tive a rosa do amor

- rubra rosa, sem pudor.

Cobicei, cheirei, colhi.

Mas ela despetalou

E outra igual, nunca mais vi.


Já vivi mil aventuras,

Me embriaguei de alegria!

Mas os risos da ventura,

No limiar da loucura,


Se tornaram fantasia...


Já almejei felicidade,

Mãos dadas, fraternidade,

Um ideal sem fronteiras

- utopia! Voou ligeira,

Nas asas da liberdade.


Desejei viver. Demais!

Segurar a juventude,

Prender o tempo na mão,

Plantar o lírio da paz!

Mas nem mesmo isto eu pude.


Tentei, porém nada fiz...

Muito, da vida, eu já quis.

Já quis... mas não quero mais...

Cecília Meireles

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ginástica


Cecília Meireles
 
Ah! Com que extremado esforço nos elevamos
acima de nós, para o inalcançável
e retornamos aos nossos limites,
e nos curvamos até o chão.

Vamos e voltamos, delicados e impetuosos,
disciplinando a força, dominando o equilíbrio,
atrelando à levitação do sonho
o peso do corpo, melancólico.

Discípulos da música, respiramos sua cadência,
e a nossa densidade parece-nos, de súbito,
transparência e cristalização.

Vamos e voltamos, inspirados e deleitosos,
e decerto quereríamos definitivamente ir:
mas o jogo é de ir e ficar.




quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sugestão

Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.
À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Não como o resto dos homens.

Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto'.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ou isto ou aquilo


Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar
ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinque, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
 
Cecília Meireles
 

domingo, 12 de setembro de 2010

Notícia da vida


 Por Darcy Damasceno

       Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro, no bairro do Rio Comprido, no dia 7 de novembro de 1901, e na mesma cidade faleceu, em 9 de novembro de 1964. Aos três anos de idade, já perdera os pais e três irmãos que não chegou a conhecer. Criada pela avó materna, habituou-se desde a infância ao exercício da solidão, e as circunstâncias dramáticas que lhe envolveram os primeiros tempos de vida foram em grande parte causadoras do precoce desenvolvimento de sua consciência e do afinamento de sua sensibilidade.
       Essa avó – Jacinta Garcia Benevides –, cujo nome Cecília deixou inscrito numa belíssima “Elegia” de Mar absoluto e outros poemas, exerceu sobre a criança extraordinária influência. Em vários lugares deixou a poetisa declarados o afeto e a admiração que lhe despertara aquela ilhoa rude e simples como os dons da terra. “O que há de mais terno em mim, de mais profundo e autêntico, é, sem dúvida, o que herdei da minha avó, açoriana de São Miguel”, confidência em carta a um amigo. E revelou numa entrevista a Pedro Bloch, para a revista “Manchete”:
       – Vovó era uma criatura extraordinária. Extremamente religiosa, rezava todos os dias. E eu perguntava: “Por quem você está rezando?” “Por todas as pessoas que sofrem!” Era assim. Rezava mesmo pelos desconhecidos. A dignidade, a elevação espiritual de minha avó influíram muito na minha maneira de sentir os seres e a vida.
       Por outro lado, envolve-se numa névoa lendária a figura do avô materno, a quem também Cecília não conheceu, mas de quem fez comovida evocação: um homem de cepa antiga, que jamais se deixara fotografar, “para que não morresse”. Esse avô, cuja figura apenas imaginada por coisas de ouvir dizer se fixaria tão emocionadamente em sua alma, esse avô não teria sequer nome em papéis: as notícias respeitantes à biografia de Cecília e por ela mesma fornecidas passaram sempre da designação dos avós paternos – sem expressão afetiva em sua vida – para a avó Jacinta. Era como se se prolongasse a magia daquele ser, calando-se-lhe o nome.
       A infância de orfandade deu a Cecília, conforme a escritora mesma declarou mais de uma vez, duas coisas que parecem negativas, mas que para ela foram sempre positivas: silêncio e solidão. Nessa área e sob esse clima desenvolveu-se toda a sua vida e a sua arte.
       Estudante da antiga Escola Normal, onde se tornou professora em 1917, distingui-se como aluna exemplar, merecendo a estima de mestres como Alfredo Gomes, Basílio de Magalhães e outros. Ingressou então no magistério primário, mas desdobrou também sua atividade noutros numerosos campos: o jornalismo, a pedagogia, o folclore – tudo a par, sempre, da criação literária. Empolgada pelos problemas educacionais, participou ativamente das campanhas renovadoras do ensino, antes e depois da Revolução de 30. Em 1935 era nomeada professora de literatura luso-brasileira da recém-fundamentada da Universidade do Distrito Federal.
       De grande significação na sua vida foram as viagens. Elas começaram em 1934 com breve visita a Portugal, onde reencontrou as raízes do sangue e da herança cultural; continuaram; continuaram em 1940 (Estados Unidos e México) e, depois, em diferentes oportunidades, conheceu o Uruguai, a Argentina, a Espanha, a Índia, Israel, Itália, Holanda, França, etc., extraindo do contato com gentes, costumes e idiomas matéria de melhor compreensão da vida da humanidade. Nenhuma região, entretanto, imprimiu-se-lhe na sensibilidade como a Índia, para cuja cultura se voltara Cecília desde a adolescência e de cujo pensamento filosófico se aproximara através dos anos.
       Cecília Meireles casou-se duas vezes: a primeira (em 1922) com o artista português Fernando Correia Dias; a segunda (em 1940) com o agrônomo Heitor Grillo. São do primeiro matrimonio as três filhas que deixou.

Rio de Janeiro, 1972.

Fonte: Cecília Meireles: seleta em prosa e verso. Seleção, notas e apresentação de Darcy Damasceno. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1975.

Beira-Mar

Sou moradora das areias
de altas espumas: os navios
passam pelas minhas janelas
como o sangue nas minhas veias
como os peixinhos nos rios...

Não têm velas e têm velas;
e o mar tem e não tem sereias;
e eu navego e estou parada
vejo mundos e estou cega,
porque isto é mal de família,
ser de areia, de água, de ilha...
E até sem barco navega
quem para o mar foi fadada.

Deus te proteja, Cecília,
que tudo é mar – e mais nada.

Cecília Meireles

sexta-feira, 30 de abril de 2010

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília Meireles

Flor de poemas. RJ: Nova Fronteira, 1972.

sexta-feira, 23 de abril de 2010



Fonte: Estúdio B